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Adjuvantes

Como mitigar as perdas por deriva nas aplicações de produtos fitossanitários?

Maickon Balator – Gerente da linha de adjuvantes Grupo Vittia

Com o intuito de garantir a segurança alimentar da população mundial nas próximas décadas, a utilização e aperfeiçoamento de novas tecnologias na agricultura são de suma importância para atingir esse objetivo.

Em relação a proteção de plantas, a tecnologia de aplicação exerce papel essencial na melhoria das pulverizações dos produtos fitossanitários. 

Um dos grandes desafios é aliar eficiência das aplicações com rendimento operacional. Contudo, durante o processo de pulverização temos vários obstáculos até a planta absorver os defensivos agrícolas e fertilizantes foliares.

Segundo Matuo (1998), a tecnologia de aplicação de produtos fitossanitários, é o emprego de todos os conhecimentos científicos que proporcionem a correta colocação do produto biologicamente ativo no alvo, em quantidade necessária, de forma econômica, com o mínimo de contaminação de outras áreas.

As perdas de defensivos agrícolas por deriva é um dos grandes problemas na agricultura mundial, tendo em vista o risco da contaminação ambiental, dos seres humanos e também pela perda da eficiência dos produtos no controle das pragas, doenças e plantas daninhas.

A deriva está relacionada com condições climáticas desfavoráveis à aplicação aliado a técnica de aplicação adotada, em especial o espectro de gotas. Quanto menor o espectro de gotas (menor o DMV das gotas) maior será o risco de deriva.

Um dos melhores exemplos da deriva causando problemas significativos na agricultura foi observado na pulverização do herbicida Dicamba em pós emergência sobre variedades tolerantes de soja e algodão, desde o lançamento dessas variedades em 2016 nos Estados Unidos. Relatos apontam que cerca de 1,4 milhões de hectares de soja sensível ao herbicida no Centro-sul e Centro-oeste dos Estados Unidos foram prejudicados pela aplicação do Dicamba em 2017.  Embora os relatos não tenham sido tão altos em 2018, ainda havia mais de 400.000 hectares com sintomas de aplicação de Dicamba.

Como mitigar as perdas por deriva nas aplicações dos produtos fitossanitários ?

Aplicar se possível nas melhores condições meteorológica, tais como, velocidade do vento entre 3 a 10 km/h, umidade relativa do ar acima de 55% e temperatura do ar abaixo de 32° C.

Reduzir a altura da barra em relação ao alvo biológico, desde que não comprometa a uniformidade de aplicação. 

Trabalhar com velocidade do pulverizador adequada ao terreno, evitando altas velocidades, pois quanto maior a velocidade, maior será a pressão e consequentemente menor o DMV das gotas e com isso maior será o risco de deriva.

Evitar altas pressões de trabalho, pois conforme o último parágrafo, altas pressões aumentam a produção de gotas de menores diâmetros, aumentando o risco de perdas por derivas.

Selecionar pontas de pulverizações que proporcionem gotas ultra grossas com baixa porcentagem de gotas menores que 100 micrometros para os herbicidas auxínicos, tais como, 2,4 D e Dicamba. Esta é uma estratégia essencial para reduzir o risco de fitotoxicidade em áreas sensíveis a estes herbicidas. 

Para aplicações de inseticidas e fungicidas é essencial termos uma excelente cobertura na superfície foliar, em especial no terço médio e inferior da cultura, local onde ocorre o início da infecção das doenças, devido ao micro clima proporcionado pela cultura nas fases reprodutivas, com isso se faz necessário a escolha correta de pontas de pulverização que produzem gotas médias a finas. Estes espectros de gotas serão mais sensíveis às perdas por deriva, com isso, para estas classes de produtos o produtor deverá ter maior atenção quando utilizar este espectro de gotas para não reduzir a eficiência biológica destes produtos. 

E por fim, como estratégia de mitigar as perdas por deriva, temos os adjuvantes para uso agrícola que exercem um papal fundamental para melhorar a eficiência biológica dos produtos fitossanitários e fertilizantes foliares. 

Como definição, os adjuvantes são substâncias ou compostos sem propriedade fitossanitária, que são adicionados (exceto a água) numa preparação agrícola, para aumentar a eficiência ou modificar determinadas propriedades da solução, visando facilitar a aplicação ou minimizar possíveis problemas. Significa um ingrediente que melhora as propriedades físicas de uma mistura. Estes adjuvantes podem desempenhar várias funções distintas (KISSMANN, 1997).

Segundo Vargas e Roman (2006), os adjuvantes são divididos em dois grupos: os modificadores das propriedades de superfície dos líquidos (surfactantes, espalhante, umectante, detergentes, dispersantes e aderentes, redutores de deriva, entre outros) e os aditivos (óleo mineral ou vegetal, sulfato de amônio e ureia, entre outros) que afetam a absorção devido à sua ação direta sobre a cutícula.

Os adjuvantes redutores de deriva possuem como principal função reduzir a porcentagem de gotas muita finas (abaixo 100 micrometros) e aumentar o DMV reduzindo as perdas por deriva.

É muito importante consultar o fabricante dos adjuvantes para entender o comportamento do seu produto com a ponta de pulverização que o produtor utilizará em suas pulverizações. Pois há inúmeras interações com o tipo da ponta e da aplicação (aérea ou terrestre) com os diferentes tipos de adjuvantes no mercado.

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Inoculante

A relevância do Azospirillum no sistema de produção agrícola

Viviane Costa Martins Bordignon
Gerente de Produtos Inoculante – Grupo Vittia

 

O Azospirillum é uma bactéria de vida livre, com capacidade de se associar às plantas fixando nitrogênio da atmosfera e produzindo hormônios, como o AIA, que auxiliam no melhor desenvolvimento das plantas. Sabe-se que ele é capaz de colonizar diversas espécies de plantas, não sendo apenas gramíneas, como inicialmente foi estudado no Brasil, mas também leguminosas.

As pesquisas com essa bactéria foram iniciadas em 1970 pela Dra Johanna Dobereiner em diversas gramíneas, como cana, milho, trigo, sorgo e outras. E, em paralelo, a Universidade Federal do Paraná (UFPR), representada pelo pesquisador Dr. Fábio Pedrosa, também focou suas pesquisas com Azospirillum, sendo um centro de referência desse assunto, e mais tarde tornando-se o centro de distribuição das estirpes de uso comercial no Brasil. 

A partir de então, a pesquisa durou muitos anos para entender a real interação da bactéria com a planta e verificaram-se excelentes benefícios em diferentes culturas, como milho, trigo, arroz e outras. 

Diante disso, o Grupo Vittia, enxergando a grande oportunidade de contribuir com mais uma tecnologia para agregar produtividade aos sistemas de produção agrícola, iniciou seu desenvolvimento de pesquisas na cultura do milho e, em seguida, obteve o registro da tecnologia Biomax Azum®.

 

Tecnologia

Biomax Azum® é um inoculante líquido com adequada concentração da bactéria Azospirillum brasilense que garante fornecimento adicional de N às plantas, assim como promove melhor desenvolvimento e produtividade das lavouras.

No campo, com o lançamento da tecnologia, foram comprovados os benefícios identificados pela pesquisa e, com isso, a adoção deste inoculante foi aumentada, inclusive se expandido para novas culturas.

Mais recentemente, o Grupo Vittia obteve o registro do Biomax Azum® para o trigo. De acordo com as pesquisas desenvolvidas pela pesquisadora do IAPAR, Dra. Diva Andrade, em quatro diferentes ambientes edafoclimáticos favoráveis para o desenvolvimento dessa cultura, o Biomax Azum® é uma tecnologia viável como inoculante na cultura do trigo. 

No experimento conduzido na região de Guarapuava (PR), a inoculação com Biomax Azum® resultou em um incremento de 399 kg/ha, ou 07 sc/ha em relação à testemunha, e de 243 kg/ha ou 04 sc/ha, quando comparado ao tratamento com 100% da adubação nitrogenada. 

O mesmo foi observado na pesquisa realizada em área de produção de trigo em Londrina (PR). A inoculação com o Biomax Azum® proporcionou um ganho de 370 kg/ha ou 06 sc/ha em relação ao tratamento sem inoculação e sem nitrogênio mineral e de 206 kg/ha ou 03 sc/ha, comparando-o com a adubação mineral desse tão importante nutriente para as culturas.

Esses trabalhos confirmam e evidenciam a essencialidade do Biomax Azum® no trigo, assim como já havia sido observado em milho. Mas, vale ressaltar que, assim como mencionado no início desse artigo, o Azospirillum é capaz de colonizar diversas espécies de plantas, não sendo apenas gramíneas, como abordamos anteriormente, mas também leguminosas. 

 

Coinoculação

Mais recentemente, com o objetivo de aumentar ainda mais a eficiência da fixação biológica de nitrogênio em leguminosas, como soja e feijão, a pesquisa oficial brasileira desenvolveu uma nova estratégia, a coinoculação. 

Essa técnica consiste na associação de uma ou mais bactérias, sendo que a mais estudada e utilizada no campo é a associação das bactérias Bradyrhizobium sp ou Rhizobium sp e Azospirillum brasilense, visando maior e melhor fornecimento de nitrogênio, melhor desenvolvimento das plantas e maiores incrementos em produtividade.

Os benefícios da coinoculação se dão pela capacidade do Azospirillum em produzir hormônios, como o AIA que, assim como mencionado no início, auxiliam no melhor desenvolvimento das plantas, principalmente do sistema radicular. Com isso, irá facilitar a comunicação do Bradyrhizobium sp/Rhizobium sp com a planta e garantirá a antecipação na formação de nódulos, maior número de nódulos e mais nódulos localizados na raiz principal das plantas, os quais são em torno de 25% mais eficientes que os das raízes secundárias. 

Todos esses benefícios foram comprovados pela pesquisa oficial brasileira e têm sido confirmados a campo nas mais diversas condições edafoclimáticas.

 

Mais produtividade

De acordo com os trabalhos feitos pela Embrapa nas últimas safras na cultura da soja, com a adoção da coinoculação os incrementos passam a ser de 16% em relação as plantas não inoculadas, ou seja, o dobro quando comparado a inoculação padrão, que proporciona 8% de ganhos em produtividade. 

Nós, do Grupo Vittia, desenvolvemos um conjunto de trabalhos a campo desde a pesquisa até campos demonstrativos em áreas de produção comercial de soja, onde ficou evidente o que a pesquisa oficial já tinha comprovado. 

Em quatro ensaios conduzidos nas 2016/17 e 2017/18, pela pesquisadora Dra Ivana Bárbaro, da APTA, considerando a média dos tratamentos com a coinoculação com Biomax Premium Líquido Soja® e Biomax Azum®, foram observados incrementos de produtividade de 715,84 kg/ha ou 11,93 sc/ha em relação à testemunha não inoculada e de 343,38 kg/ha ou 5,7 sc/ha comparando-o com a inoculação tradicional com Biomax Premium Líquido Soja®, demonstrando que o produto Biomax Azum® pode e deve ser recomendado para a coinoculação com o Biomax Premium Líquido Soja® na referida cultura. 

Abaixo o resultado de uma das áreas experimentais conduzidas pela Dra Ivana Bárbaro:

Assim como em soja, a Embrapa também vem desenvolvendo pesquisas com a coinoculação em feijão. Em diversos trabalhos, verificaram que em feijão produzido pela agricultura empresarial, o incremento que a coinoculação (Rhizobium + Azospirillum) proporcionou em relação ao adubo nitrogenado foi de 11% e de 26% em relação à inoculação padrão com Rhizobium. E ainda, com uma lucratividade de +90% nas pesquisas do Estado de GO e de +114% nas pesquisas do Estado de MG.

Essa excelência na resposta do feijão impacta diretamente na sustentabilidade do sistema agrícola de produção, pois a partir de cálculos realizados, verificou-se que substituindo o adubo nitrogenado pela coinoculação seria possível mitigar aproximadamente 700 mil toneladas de CO2, o que é igual a 50% do que o governo objetiva na redução da emissão de gases de efeito estufa até 2020. Ou seja, uma estratégia que impacta positivamente nos diversos pilares da agricultura, não só a brasileira, mas mundial. 

 

Sem limites

O Grupo Vittia também vem realizando pesquisas com a cultura do feijão. O experimento na última safra de feijão irrigado foi conduzido pelo professor Dr. Orivaldo Arf (UNESP), que apontou que a coinoculação do Biomax Premium Feijão® com Biomax Azum® proporcionou ganhos da ordem de 915 kg/ha em relação ao controle (sem N e sem inoculante) e de 310 kg/ha, comparando-o à adubação nitrogenada comumente realizada na cultura. 

Ainda, o incremento da coinoculação versus a inoculação padrão foi de 334 kg/ha. Ou seja, um resultado que evidencia o quanto a coinoculação no feijoeiro é eficiente, podendo contribuir significativamente para a máxima sustentabilidade das lavouras implantadas com essa cultura. 

Todas essas claras evidências justificam o grande sucesso dessa técnica no campo em tão curto espaço de tempo. Mas, as oportunidades com essa bactéria de tão grande importância não ficam por aqui. Nesta safra, nós do Grupo Vittia estamos também investindo em pesquisas em pastagem e cana-de-açúcar, duas culturas que vêm ocupando grande parte das áreas de produção do Brasil e do mundo.

Ou seja, uma bactéria que veio para reforçar que processos biológicos podem gerar ganhos expressivos na produtividade das lavouras e na lucratividade dos agricultores.

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Nutrição Vegetal

Avanços sobre o uso de magnésio na citricultura

Fonte: Informativo Centro de Citricultura, 293. Outubro 2019

 

As dificuldades fitossanitárias enfrentadas pelos citricultores nos últimos anos os forçaram a adotar novas tecnologias, as quais proporcionaram ganhos em rendimento por área. Nesse novo patamar de produtividade, o suprimento adequado de nutrientes para o pomar se torna fundamental, não apenas por favorecer o potencial produtivo das plantas, como também por influenciar na qualidade dos frutos.

No passado, em pomares de citros com produtividade média inferior a 20 toneladas por hectare, a demanda da planta por magnésio (Mg) era exclusivamente satisfeita pela calagem, praticamente não havendo necessidade de aportes extra do nutriente. No entanto, nos novos cenários da citricultura, cujos pomares são cada vez mais produtivos, a complementação do nutriente com outras fontes fertilizantes, em especial aquelas de maior solubilidade em água, se torna necessária para a manutenção da sua produtividade e qualidade.

Além dos ganhos em produtividade, outros fatores vêm intensificando a demanda de Mg pelos pomares cítricos, tais como: (i) cultivo em solos ácidos e intemperizados, nos quais os teores de Mg trocáveis são inerentemente baixos e competem com outros cátions, em especial o potássio (K); (ii) perda de qualidade de frutos, em especial aqueles destinado à indústria; (iii) aumento do uso da fertirrigação que proporciona maior percolação de cátions no perfil do solo, como cálcio (Ca) e Mg, e maior acidificação da região do bulbo úmido, o que reduz a disponibilidade de Mg; e (iv) mudanças climáticas cada vez mais frequentes e associadas à temperaturas extremas do ar, como ondas de calor, o que consequentemente aumenta a foto-oxidação das plantas.

Os sintomas de deficiência de Mg ocorrem comumente em folhas maduras e são caracterizados por clorose internerval com um aspecto de “V” invertido, que inicia nas margens das folhas e progride para o amarelecimento de todo limbo foliar (Figura 1); outros sintomas como queda prematura das folhas com sintomas e prejuízos à qualidade dos frutos também podem ser observados.

Os atuais ganhos em produtividade não têm traduzido necessariamente ganhos em qualidade da fruta, tanto para a produção de suco concentrado (FCOJ – frozen concentrated orange juice) quanto de suco não concentrado (NFC – not from concentrated). Segundo dados da CitrusBR (www.citrusbr.com) até a década passada eram necessárias, cerca de 230 caixas (40,8 kg) para se produzir uma tonelada de FCOJ (66 °Brix). No entanto, nos últimos anos esse valor subiu para algo em torno de 265 caixas/t de FCOJ. Esse menor rendimento industrial vem forçando a indústria produtora de suco a remunerar os citricultores de forma diferenciada, prática pouco comum no passado. Apesar de forma ainda tímida, hoje existem contratos nos quais são dadas bonificações em função da qualidade da fruta.

O Mg influencia o balanço de carboidratos entre a fonte e os drenos como raízes, flores e frutos (Hermanns et al., 2005). Desse modo, a concentração do nutriente na planta está diretamente relacionada com o acúmulo de açúcares no fruto. Em estudo no qual objetivou estudar fontes e doses de calcário verificou-se que o acréscimo na dose de calcário dolomítico aumentou de forma linear a disponibilidade de Mg para os citros e a concentração de sólidos solúveis (°Brix) nos frutos (Figura 2 A; Quaggio et al., 1992). Resultados semelhantes entre o teor de Mg foliar e a porcentagem de sólidos solúveis em frutos cítricos também foram observados quando se utilizou uma fonte solúvel de Mg aplicada no solo (Figura 2 B; Boaretto et al., 2015).

Na principal região brasileira produtora de citros, tem sido comum a ocorrência de eventos climáticos extremos, como ondas de calor que chegam a ter duração de 4 a 10 dias, com temperaturas máximas acima de 40 ºC e baixa umidade do ar.

 

Quando esses eventos ocorrem durante os estágios iniciais de florescimento e de frutificação podem promover o abortamento de flores e queda de chumbinhos e, quando a ocorrência eles se dão em etapas mais avançadas de desenvolvimento dos frutos é comum a queima da casca, em especial naqueles localizados na face oeste da planta, que ficam expostos ao sol da tarde, causando ainda danos às vesículas de suco. Ambas as situações podem acarretar perdas tanto de produtividade quanto de qualidade. 

Neste sentido, o manejo otimizado do Mg pode minimizar o impacto da alta radiação e temperatura, uma vez que este nutriente está diretamente relacionado com a integridade das clorofilas e ativação de enzimas relacionadas à fotossíntese e ao sistema antioxidante. Em estudos com plantas de citros expostas à alta radiação luminosa verificou-se que uma adubação suplementar de Mg aumentou as trocas gasosas foliares, a assimilação de CO2 e a eficiência de carboxilação instantânea, indicando que a planta foi mais eficiente no uso da energia luminosa capturada e na fixação de CO2. Além disso, plantas que receberam suplementação de Mg apresentaram maior ativação de enzimas envolvidas na desintoxicação das espécies reativas de oxigênio (EROs), como a superóxido dismutase (SOD), que reduz o O2 para H2O2, que em seguida será transformado em H2O e ½O2 por outras enzimas como a glutationa redutase, que teve sua atividade aumentada com o aumento do suprimento de Mg para a planta (Figura 3). Os resultados desse trabalho indicam que aportes extras de Mg podem proporcionar às plantas maior tolerância a condições de estresses bióticos e abióticos, o que impactará em ganhos de produtividade e qualidade para os pomares cítricos. Essa é uma das pesquisas atualmente em desenvolvimento no Programa Fisiologia da Produção, do Centro de Citricultura Sylvio Moreira. 

 

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Fertilizantes Organominerais

Adubação do cafeeiro com fertilizantes organominerais

Regina Maria Quintão Lana
(Professora de Fertilidade e Nutrição de Plantas – UFU)

 

Mara Lúcia Martins Magela
(Doutoranda em Fitotecnia – UFU)

 

Luciana Nunes Gontijo
(Doutoranda em Produção Vegetal – UFU)

 

Em 2020, de acordo com estimativa divulgada pela Companhia Nacional de Abastecimento-CONAB em seu 4º levantamento da safra 2020, a safra brasileira de café, com a influência de bienalidade positiva, indica uma produção de 63,08 milhões de sacas de café beneficiadas (incremento de (27,9% superior a produção de 2019). Em relação à produção da safra 2018 que também foi de bienalidade positiva, o crescimento foi de 2,3%.

Figura 1: Cafezais em pleno desenvolvimento após fertilização adequada

Esse crescimento da produtividade vivenciado pelo setor está associado a um conjunto de fatores que envolvem o ciclo de alta bienalidade, principalmente das lavouras cultivadas com a espécie Arábica; condições climáticas favoráveis, renovação do parque cafeeiro com cultivares mais produtivas e o uso de novas tecnologias, como irrigação, adubação e controle de pragas e doenças. Neste contexto, destaca-se que a contribuição de cada fator relacionado com as excelentes estimativas de produtividade do café brasileiro, possui seus benefícios condicionados aos aspectos de nutrição do cafezal e ao manejo da fertilidade do solo.

A cultura do café está inserida dentro de um movimento financeiro e mercadológico muito importante para a economia nacional e mundial, o que tem exigido cada vez mais manutenção e aumento dos índices de produtividade de maneira dinâmica e aprimorada. Para isso, é necessário buscar por práticas que sejam economicamente viáveis e também sustentáveis em todos os âmbitos de condução da cultura. 

Dentro da temática de fornecimento de nutrientes para o café, muitas tecnologias em fertilizantes foram desenvolvidas com a finalidade de maximizar esse processo, tornando-o mais eficiente e sustentável. Uma das tecnologias disponíveis para atender essa demanda inclui os fertilizantes organominerais.

Diversos estudos já realizados, e outros ainda em andamento, têm comprovado que o uso de fertilizantes organominerais proporciona grandes benefícios para o manejo do cafeeiro, principalmente em condições de solos de cerrado, com desbalanço nutricional e/ou desequilíbrio químico e físico.

No cafeeiro, os benefícios desses fertilizantes podem ser percebidos nas propriedades físico-químicas do solo permitindo diminuição no uso de corretivos, redução de doses e de parcelamentos (somente 2 ou 3 aplicações), que normalmente, com os fertilizantes minerais são realizadas em até seis vezes durante o ciclo de produção. 

Em pesquisa sobre o uso de fertilizante organomineral aplicado isoladamente e em dose única em Coffea arabica cultivar “Catuaí Amarelo IAC-62”, Sandy e Queiroz (2018) observaram resultados de produtividade tão bons quanto os alcançados pelas plantas fertilizadas com fontes exclusivamente minerais, confirmando o potencial de uso com eficiência econômica e agronômica das formulações organominerais.

Destaca-se neste trabalho que, tais resultados se repetiram mesmo com a redução da dose de recomendação, com incremento de 9.17 sacas ha-1 para o tratamento que usou menor dose do fertilizante organomineral (33%+NK-S) em relação ao tratamento que utilizou a dose total da recomendação com fontes exclusivamente minerais (Tabela 1).

Tabela 1: Fertilizante organomineral (08.00.10 + 8S) em Coffea arabica cultivar “Catuaí Amarelo IAC-62”
Fertilizantes Sacas ha-1
Safra 2015/2016 Safra 2016/2017 Média
Controle 38.86 b 19.32 b 29.09 b
(30-00-00 +KCl) 50.46 a 44.13 a 47.29 a
Organomineral NK+S (33% dose) 63.61 a 49.31 a 56.46 a
Organomineral NK+S (66% dose) 38.02 b 41.07 a 39.55 a
Organomineral NK+S (99% dose) 36.08 b 37.15 a 36.62 a

(Adaptado de Sandy; Queiroz, 2018)

 

A matriz orgânica do fertilizante organomineral promove maior aproveitamento dos nutrientes pelas plantas através do processo de slow realese, ou seja, liberação lenta dos elementos que ficam menos expostos a perdas por volatilização do nitrogênio, lixiviação do potássio e adsorção do fósforo. 

De acordo com Santinato et al. (2013), o uso de fontes orgânicas juntamente com a adubação mineral no manejo do cafeeiro proporciona maiores teores de macro e micronutrientes no solo e maior absorção dos nutrientes pelas raízes, especialmente do fósforo, a medida que a fração orgânica no sistema é aumentada.

Em pesquisa conduzida por Acra em 2015, o uso de fertilizante organomineral em uma lavoura de café, cultivar Catuaí Vermelho, com sete anos de idade, aumentou os teores de P no solo aos 90 dias após a aplicação, sendo que a quantidade deste nutriente cresceu linearmente à medida que se aumentou as doses do fertilizante.

Carmo et al. (2014) objetivando avaliar a influência de diferentes fontes e doses de fósforo em vaso, observaram que as maiores produções de massa seca total foram com o fertilizante Organomineral e Torta de Filtro + Fosfato Natural, enquanto que, a menor produção foi verificada para o Fosfato Natural aplicado isoladamente. 

 O efeito do fósforo no organomineral sobre a biomassa do café demonstra a importância da matéria orgânica associada à adubação fosfatada, pois a ocupação dos sítios de adsorção de P no solo leva a menor reação deste elemento com os minerais de argila e óxidos de ferro, e isso se reflete em aumento da disponibilidade de P para a solução do solo. Os autores ressaltam também que esses resultados podem ser justificados pelo fato do fertilizante Organomineral e a Torta de filtro + Fosfato Natural apresentarem relações de Ca/Mg próximas do ideal para a cultura, o que contribuiu na obtenção de maior produção.

 O aporte de matéria orgânica no solo exerce influencia positiva sobre os atributos físicos que estão diretamente ligados à aeração e retenção de água. Neste aspecto, Partelli et al. (2011) avaliando as características físicas do solo com cafeeiro Conilon, observaram melhorias na densidade do solo, porosidade total e na resistência a penetração no cultivo orgânico comparado a área de cultivo convencional adubado com fertilizantes minerais (Tabela 2).

Tabela 2. Características físicas do solo em função do manejo do cafeeiro Conilon (C. canephora)
Área Profundidade Densidade P. Total Mac Mic RP 0.1 RP 0.33
m     mg m-3     m³ m-3 MPa
Café convencional 0.00-0.10 1.591 0.415 0.177 0.236 1.897 4.643
Café convencional 0.10-0.20 1.581 0.423 0.184 0.234 1.940 4.671
Café orgânico 0.00-0.10 1.402 0.473 0.219 0.254 1.168 1.503
Café orgânico 0.10-0.20 1.501 0.448 0.200 0.246 1.371 2.741

Mac= Macroporosidade; Mic= Microporosidade; RP= Resistência a Penetração (Adaptado de Partelli et al., 2011)

 

É de grande importância o aprofundamento do sistema radicular, bem como, a atividade microbiana da rizosfera do cafeeiro. Assim, a melhoria na estrutura do solo, aeração, redução da compactação, retenção de água, são de extrema importância. Neste contexto, Martins Neto et al. (2009), comparando a respiração edáfica e a presença de micorrizas em sistemas orgânicos e convencionais de produção de café da variedade Catuaí, confirmou que houve aumento da respiração microbiana do solo e presença de micorrizas no solo manejado organicamente (Tabela 3).

Tabela 3. Respiração edáfica e presença de micorrizas em cafezais orgânico e convencional

Respiração Presença de Micorrizas
Edáfica mg Co2 m-3 h-1  Nº de esporos em 50 g de solo Infecção Micorrízica (%)
Sistema arborizado Março
Orgânico   136.71 a 607.80 a 42.40 a
Convencional   109.37 b 274.60 b 38.40 a
Sistema arborizados Setembro
Orgânico   167.22 a 592.8 a 18.2 a
Convencional   129.51 b 285.8 b 10.0 b

                                                                                                                                                                                                        (Adaptado de Martins Neto et al., 2009)

 

Chalfoun et al. (2005) analisando a microbiota associada ao solo em sistemas de cultivo orgânico de café, observaram maior presença do gênero Penicillium em relação aos locais fora da área de plantio, que apresentavam menores teores de matéria orgânica. A presença do Penicillium constitui fator importante dentro do sistema de cultivo do cafeeiro, pois muitas pesquisas sinalizam que o fungo se constitui um potencial solubilizador de fósforo.

Os fertilizantes organominerais, além dos benefícios nas propriedades físicas, químicas e microbiológicas do solo, melhoram o metabolismo das plantas através da redução de estresses bióticos e abióticos, equilíbrio das atividades metabólicas, manutenção da fotossíntese ativa e balanço hormonal positivo. Com isso, há um crescimento radicular com mais raízes laterais, maior crescimento vegetativo, maior número de ramos plagiotrópicos, maior retenção de folhas e flores, redução do efeito de bienalidade e, consequentemente, incrementos na produtividade.

Candido et al. (2013), estudando diferentes fertilizantes organominerais no desenvolvimento inicial do cafeeiro arábica cultivado em vaso, observaram que o organomineral granulado proporcionou superioridade de 70.91% no diâmetro de caule; 25.81% a mais no número de ramos plagiotrópicos; 47.47% a mais de área foliar e 52.88% a mais de massa seca total em relação ao café adubado com fonte exclusivamente mineral (superfosfato simples) (Tabela 4).

Tabela 4. Fontes organominerais de P no desenvolvimento inicial do cafeeiro arábica cultivado em vaso (cv. Catuaí)
Fertilizantes Diâmetro de caule (mm) Altura de Plantas (cm) Nº Ramos Plagiotrópicos Área Foliar (cm²) Massa Seca Total
Ausência de aplicação de P 4.36 c 23.97 b 0.00 d 341.25 d 4.92 e
Superfosfato simples (Padrão) 5.33 b 35.35 a 7.75 b 1841.50 b 23.43 b
Orgânico granulado 5.53 b 26.00 b 3.25 c 1263.75 c 10.86 d
Org. em pó com microrganismos solub.  P 4.41 c 32.12 a 6.25 b 1354.00 c 17.09 c
Organomineral granulado 9.11 a 35.35 a 9.75 a 2715.75 a 35.82 a
Organomineral em pó com turfa 6.19 b 26.05 b 6.50 b 1088.00 c 13.24 d

(Candido et al, 2013) 

 

O aumento de produtividade no cafeeiro com organominerais se deve tanto devido à melhoria nas propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, quanto à ação fisiológica positiva sobre as plantas. 

 

Figura 4. (A) Taxa de assimilação de CO2 (A µmol CO2 m-2s-1), (B) condutância estomática (g molm-2s-1), (C) carbono interno (Ci mol mol-1), (D) transpiração (E mol vapor d’água m-2s-1), (E) eficiência do uso da água (EUA- A/E µmol H2O) em folhas de mudas de café Catucaí 24/137 amarelo desenvolvidas em viveiro sob diferentes adubações. Machado (MG) 2019. 

Segundo Ruela (2019), as plantas sob efeito da adubação organomineral apresentaram maior taxa de assimilação de CO2, o que representa uma maior fotossíntese líquida e queda na condutância estomática. Isso resultou em uma menor transpiração, sendo assim uma economia de energia pelas plantas, que provavelmente irá refletir em desenvolvimento vegetativo e produtividade, bem como diminuição do carbono interno, pois estava sendo utilizado para maior fotossíntese. Tudo isso com uma maior eficiência do uso da água (Figura 2). Essas plantas possivelmente têm maior resistência a períodos de estresse hídrico do que as plantas submetidas ao tratamento controle ou até mesmo as adubadas com fertilizante mineral

É de grande importância a escolha de fertilizantes mais eficientes que priorizem o manejo da matéria orgânica no sistema produtivo, sendo os fertilizantes organominerais uma tecnologia viável para fornecer os nutrientes e matéria orgânica demandados pelo cafeeiro para se obter alta produtividade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ACRA, G. Z. Fertilizantes organominerais no cafeeiro e atributos químicos do solo. Trabalho de conclusão de curso apresentado ao curso de Agronomia, da Universidade Federal de Uberlândia, para obtenção do grau de Engenheiro Agrônomo. 19f. 2015.

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CARMO, D. L.; TAKAHASHI, H. Y.; SILVA, C. A.; GUIMARÃES, P. T. Crescimento de mudas de cafeeiro recém-plantadas: efeitos de fontes e doses de fósforo. Coffee Science, Lavras, v. 9, n. 2, p. 196-206, abr./jun. 2014.

CHALFOUN, S. M., ANGÉLICO, C. L., BATISTA, L. R., AND PEREIRA, M. C. (2005). Predominância do gênero Penicillium em solos de cultivo de café pelo sistema orgânico. In: 4° Simpósio de Pesquisa dos Cafés do Brasil. Embrapa Café, Brasília. Disponível em:<https://www.bing.com/search?q=PREDOMIN%C3%82NCIA%C2%A0DO%C2%A0G%C3%8ANERO%C2%A0PENICILLIUM%C2%A0EM%C2%A0SOLOS%C2%A0DE%C2%A0CULTIVO%C2%A0DE%C2%A0CAF%C3%89%C2%A0+PELO%C2%A0SISTEMA%C2%A0ORG%C3%82NICO%C2%A0+&form=EDNTHT&mkt=pt-br&httpsmsn=1&refig=d0e41796470a4a4af438e067792f9bfb&sp=-1&pq=predomin%C3%A2ncia+do+g%C3%AAnero+penicillium+em+solos+de+cultivo+de+caf%C3%A9+pelo+sistema+org%C3%A2nico+&sc=0-86&qs=n&sk=&cvid=d0e41796470a4a4af438e067792f9bfb>.

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Controle Biológico

Uso de produtos biológicos na agricultura moderna

Atualmente é difícil participar de algum evento, “live”, reunião, grupo de “whatsapp” com outros produtores ou mesmo uma roda de conversa com colegas agricultores onde o tema de controle biológico não seja mencionado. Assim como cansamos de ouvir em 2020 sobre o novo normal que vivemos em virtude da pandemia, o uso de produtos biológicos é o novo normal da agricultura moderna.

Embora seja tratado como um assunto novo ou como uma inovação do agronegócio, o fato é que desde que o gato percebeu que o rato era uma excelente fonte de alimento e que o ser humano notou poderia utilizar do apetite do bichano para evitar com que seus grãos fossem comidos pelo roedor, que o controle biológico surge.

Os primeiros relatos do ser humano fazendo uso dessas interações ecológicas (ex.: predação; parasitismo; competição; etc.) para controle de pragas vem da China Imperial, onde os agricultores introduziam colônias de formigas em suas lavouras para controlar pragas do citrus. 

Desde então, diversos são os relatos do uso de controle biológico na agricultura e até mesmo na medicina, como foi o caso da descoberta da penicilina em 1928, quando o distraído Alexandre Fleming, ao sair de seu laboratório para curtir um feriado, deixou uma placa de petri contendo a bactéria Staphylococcus sp. aberta e ao retornar, notou que um fungo havia crescido na mesma placa e estava produzindo uma substância que inibia o avanço desta bactéria, dando origem então ao primeiro antibiótico a ser usado pela medicina.

Dado o histórico do controle biológico, fica claro que ele não é tão novo assim, mas se já temos conhecimento dessa ferramenta desde o tempo dos imperadores chineses, por que só agora estamos falando disso?

A resposta é simples: Porque agora precisamos dessa ferramenta para produzirmos mais e melhor!

O uso de defensivos químicos sempre foi predominante em nossa agricultura, principalmente pelos aspectos práticos de produção e manejo, pois, é muito mais simples levar um inseticida contido em um frasco fechado para ser aplicado no controle de pragas, do que ter que buscar um formigueiro, correndo o risco de ser picado, as formigas escaparem, morrerem no caminho e ainda chegar no local onde será aplicado, um tamanduá comer o restante das formigas que sobreviveram ao transporte.

Desta forma, principalmente devido à facilidade de produção e manuseio, os químicos dominaram o mercado, porém, aprendemos à duras penas que o uso inadvertido e indiscriminado dos defensivos químicos acaba por gerar populações de pragas e doenças resistentes, levando as empresas de defensivos a buscarem novas moléculas que contornassem essa resistência. O fato que o aparecimento de populações resistente vem acontecendo em uma velocidade maior que o surgimento de novas moléculas.

A EMBRAPA monitora desde a safra de 2003/2004 a eficiência das principais moléculas químicas no controle da mais devastadora doença da soja no Brasil, a ferrugem-asiática (Phakopsora pachyrhizi). Neste monitoramento observaram que o controle obtido utilizando alguns fungicidas vem caindo ou apresentando eficiência inferior à 60% (figura 1). Esses resultados reforçam a necessidade de utilizarmos novas ferramentas que venham integra o manejo integrado de pragas e doenças (MIP) e não favoreçam o surgimento de organismos resistentes. Desta forma os produtos biológicos surgem como a alternativa mais óbvia e adequada para cumprir esse papel.

 

Mas uma dúvida ainda paira sobre o uso dos biológicos: E a parte operacional? Afinal, nossos antepassados tinham que ir até o topo de montanhas para trazer formigueiros inteiros para poder fazer o controle biológico. Eis que justamente nesta área que estão as maiores inovações que o mercado de controle biológico vem experimentando.

Atualmente temos muito mais conhecimento e acesso à diversos novos microrganismos que tem ação de controle sobre pragas e doenças, não ficando restrito somente àquilo que podemos criar em uma placa de petri. Também cada dia mais dominamos como cria-los e estabilizá-los em formulações que sejam tão ou mais práticas e eficientes quanto os produtos químicos.

Exemplos práticos dessas inovações são os produtos da linha Biovalens, como o Meta-Turbo SC, inseticida registrado para controle de importantes pragas de difícil controle, como o percevejo-castanho (Scaptocoris castânea), que é produzido através de fermentação liquida sendo apresentado na forma de suspensão concentrada, contendo não somente conídios do fungo, mas estrutura vegetativas e altamente infectivas, aumentando a velocidade de ação e eficiência do Meta-Turbo SC.

Outro exemplo é o Bio-Imune, primeiro fungicida biológico registrado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para controle da ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi), formulado com o isolado exclusivo de Bacillus subtilis BV02. Sua formulação líquida, além de conter alto número de bactérias na forma de endósporos (estrutura de resistência), também apresenta alta concentração de lipopeptídeos e enzimas com ação fungicida e bactericida produzidas pelo B. subtilis BV02. Esses metabólitos que estão presentes no Bio-Imune são parte do sucesso do produto para que seja eficiente no controle até das doenças mais agressivas, como é o caso da ferrugem asiática da soja.

Como podemos ver, diferentemente do novo normal que nos foi imposto pela pandemia em 2020, o novo normal da agricultura veio para ficar e cada vez mais queremos adotar em nossas lavouras. Não somente porque está na moda ou porque o vizinho está usando, mas porque funciona, são tão práticos ou mais que os defensivos químicos e precisamos deles para produzirmos mais e melhor!

 

Referência bibliográfica:

GODOY, C. V., et al. Eficiência de fungicidas para o controle da ferrugem-asiática da soja, Phakopsora pachyrhizi, na safra 2019/2020: resultados sumarizados dos ensaios cooperativos. Embrapa Soja-Circular Técnica (INFOTECA-E), 2020.

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Biofertilizantes

Bioamino® Extra maior tolerância da cana às adversidades climáticas

Renato Passos Brandão
Gerente Especialista em Nutrição Vegetal

 

Luiz Marin
Gerente de Produtos Biofertilizantes

 

Raphael Bianco Roxo Rodrigues
Gerente Técnico de São Paulo e Sul de Minas

 

O Brasil é o maior produtor mundial no setor sucroalcooleiro. A estimativa de produção de cana para a safra 2017/2018 é de 625,96 milhões de toneladas (Conab, 2018). A produtividade da cana-de-açúcar está prevista para 72 t/ha. É considerada relativamente baixa em comparação ao potencial genético das atuais variedades de cana.

Um dos fatores que vem contribuindo para a baixa produtividade da cana são as condições climáticas desfavoráveis nas últimas safras – veranicos – que estão ocorrendo com mais frequência e intensidade.

Com o intuito de minimizar os efeitos prejudiciais dos veranicos e outros fatores abióticos que possam prejudicar o desenvolvimento da cana, o Grupo Vittia instalou um experimento para a avaliação do Bioamino® Extra aplicado via foliar em cana-soca.

O experimento foi instalado em cana-soca – variedade IAC SP95-5000 – 3º corte em um ambiente de produção classificado como B. O Bioamino® Extra foi aplicado via foliar na cana-soca em 05 de dezembro de 2017 – antes do fechamento do canavial – em um volume de calda de pulverização de 200 L/ha. A colheita da cana-soca ocorreu em 3 de agosto de 2018.

O experimento foi constituído por 4 doses do Bioamino® Extra – 0, 1, 2 e 3 L/ha com 4 repetições. As parcelas foram constituídas por cinco linhas de cana com 10 m de comprimento e espaçadas de 1,5 m entre si, totalizando 75 m2. A área útil foi constituída pelas três linhas centrais, descartando um metro nas extremidades, totalizando 36 m2

 

Resultados

O Bioamino® Extra proporcionou aumento expressivo na produtividade da cana-soca (Figura 1). O maior incremento na produtividade da cana-soca – 8,89 t/ha – ocorreu com a menor dose do Bioamino® Extra – 1 L/ha. Entretanto, a dose de 2 L/ha do Bioamino® Extra também proporcionou um aumento significativo na produtividade da cana-soca com um incremento de 13,92 t/ha de colmos.

 

O que é Bioamino® Extra?

É um fertilizante fluido orgânico composto, Classe A, com alta concentração de materiais orgânicos, obtidos por meio de processos controlados de biofermentação de açúcares.  Os aminoácidos estão na forma livre – L aminoácidos – prontamente disponível às plantas. Possui pH na faixa ligeiramente ácida a neutro – 5,5 a 7,0.

 

Garantias (p/p) – % 

  • Nitrogênio: 4% (50 g/L)
  • Carbono orgânico total (COT): 23% (287,5 g/L)
  • Densidade: 1,25 g/mL

 

Benefícios do  Bioamino® Extra em cana

O Bioamino® Extra atua no metabolismo da cana, alterando os processos vitais e estruturais das plantas, tornando-as mais tolerantes às condições climáticas adversas e aos estresses bióticos. 

 

Os benefícios do Bioamino® Extra proporcionados à cana estão abaixo:

  • Melhora o metabolismo da cana, maximizando o seu potencial produtivo;
  • Promove maior desenvolvimento radicular por meio da emissão de novas raízes. Maior absorção de água e nutrientes. Maior síntese de citocinina – fitohormônio indutor da divisão celular, promoção da formação de raízes e gemas e retarda a senescência foliar;
  • Melhora a brotação e o desenvolvimento vegetativo da cana;
  • Retarda a senescência das folhas da cana, prolongando a síntese de fotoassimilados;
  • Maior resistência da cana às condições climáticas adversas, tais como veranicos e variações bruscas de temperatura;
  • Recuperação mais rápida da cana aos estresses climáticos e fitotoxicidade causada pelos defensivos agrícolas;
  • Aumenta a produtividade da cana.

 

O que são aminoácidos?

Os aminoácidos são extremamente importantes para os seres vivos. São as unidades chaves para a síntese das proteínas (Campel; Farrel, 2017). As proteínas são polímeros de 20 aminoácidos unidos por um tipo específico de ligação covalente denominada de ligações peptídicas. 

O primeiro aminoácido descoberto foi a asparagina, em 1806 e o último dos 20 aminoácidos foi a treonina, somente em 1938. Além desses aminoácidos existem diversos outros menos comuns.  Há aminoácidos presentes nos organismos vivos, mas não como constituintes das proteínas. Alguns são resíduos modificados depois de uma proteína ter sido sintetizada (Nelson; Cox, 2011).

Os aminoácidos são moléculas orgânicas formadas por átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio (Buchanan et al., 2000). Além desses elementos químicos, há três aminoácidos – cisteína, cistina e metionina – que contém também enxofre (Campell; Farrel, 2017).

 

Bioamino® Extra aumenta a tolerância da cana às condições climáticas adversas e aos estresses bióticos

 

Os aminoácidos possuem um grupo carboxila (-COOH) e um grupo amina (-NH2), ambos ligados ao carbono central denominado de alfa, quase sempre assimétrico (carbono próximo ao grupo carboxila). Nesse carbono também ficam ligados um átomo de hidrogênio (-H) e um grupo de cadeia lateral denominado genericamente de radical – R (Figura 2). 

A cadeia lateral (R) representa um radical orgânico, determinando a identidade do aminoácido, definindo uma série de características, tais como polaridade e grau de ionização em solução aquosa (Buchanan et al., 2000).

Os aminoácidos ocorrem em dois esterioisômeros: L (levógero) e D (dextrógeno) denominados de L aminoácidos e D aminoácidos, respectivamente. Possuem a mesma forma química mas possuem diferentes estruturas espaciais. Os aminoácidos constituintes das proteínas são sempre os levógeros – L aminoácidos.

Os L aminoácidos são obtidos por processos naturais de biofermentação ou hidrólise enzimática. Os D aminoácidos são obtidos por processos artificiais como a hidrólise ácida, que podem causar a destruição dos aminoácidos ou a manutenção de grandes quantidades de peptídeos e proteínas.

 

Biossíntese dos aminoácidos

Os seres humanos e a maioria dos animais não conseguem sintetizar determinados aminoácidos – como histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, treonina, triptofano, valina e arginina. Os adultos conseguem sintetizar a arginina – tendo que obter os demais aminoácidos, denominados de essenciais, a partir da dieta (Taiz et al., 2017). 

Por outro lado, as plantas sintetizam todos os 20 aminoácidos encontrados nas proteínas. O grupo amino contendo o nitrogênio, é proveniente do íon amônio – NH4+ –derivado de reações de transaminações com a glutamina ou glutamato. 

O esqueleto de carbono dos aminoácidos é derivado do 3-fosfoglicerato, do fosfoenolpiruvato ou do piruvato gerados durante a glicólise, ou ainda do 2-oxoglutarato ou do oxalacetato formados no ciclo do ácido cítrico (Figura 3).

 

Aminoácidos nas plantas

São moléculas orgânicas essenciais ao metabolismo primário e secundário, desempenhando diversos papéis nas plantas (Tabela 1). Alguns aminoácidos desempenham funções específicas como precursores à síntese de metabólicos secundários – hormônios e moléculas de defesa das plantas às doenças (Buchanan et al., 2000).

Os aminoácidos são importantes nos sistemas antioxidantes das plantas. Atuam na redução de radicais livres e osmoproteção (Gill; Tuteja, 2010). Exercem papel fundamental na resposta das plantas aos estresses abióticos – seca, veranico, salinidade dos solos – e bióticos – fitotoxicidade dos defensivos agrícolas – e no metabolismo secundário em plantas (Hildebrandt et al., 2015).

O fornecimento dos aminoácidos às plantas aumenta a tolerância aos estresses abióticos e bióticos. Atuam na estabilização das membranas celulares e na redução de substâncias tóxicas produzidas pelas plantas sob condições estressantes. 

Os aminoácidos também conferem proteção das plantas ao ataque de pragas e doenças, atuando na biossíntese de compostos fenólicos – ácido cinâmico, as flavonas e o ácido cumárico. São precursores de lignina, conferindo maior resistência das plantas ao ataque de pragas (Alves, 2017). 

 

Tabela 1. Principais funções dos aminoácidos nas plantas.

Aminoácidos Funções nas plantas
Alanina Atua na brotação da cana

Síntese de clorofila, aumentando a atividade fotossintética

Arginina Atua na emergência das plântulas, estimulando o desenvolvimento celular com a metionina

Ação rejuvenescedora nas plantas

Precursor de poliaminas – defesa das plantas aos estresses bióticos e abióticos 

Precursor da síntese de auxinas

Aspartato Atua na redistribuição do N nas plantas via floema
Asparagina Fornecimento de N às plantas
Cisteína Fonte de S às plantas. Produção de fitoquelatinas. 

A cisteína e a glicina, atuam na síntese de glutationa, molécula importante no sistema de defesa das plantas contra às doenças

Fenilanina Precursor de compostos fenólicos – ácido cinâmico, ácido cumário, lignina, taninos e flavonoides –, atuando na defesa das plantas contra às doenças

Síntese do ácido salicílico: hormônio indutor de resistência sistêmica das plantas aos patógenos. 

Atua também na tolerância das plantas aos estresses bióticos e abióticos.

Regula a ação de enzimas antioxidantes

Glicina Síntese de porfirinas

Precursor da síntese de clorofila e fitocromos

Principal aminoácido com ação quelante de metais

Precursor de glicina betaína – molécula de defesa “osmoprotetora” em condições de estresse hídrico e salino, calor, frio e congelamento

Auxilia na manutenção da integridade das membranas celulares, mantendo a atividade fotossintética

Glutamato Atua na formação de vários aminoácidos – arginina, prolina, glutamina e aspartato. 

Precursor da molécula de clorofila. Atuam no sistema de defesa das plantas

Glutamina Precursor de outros aminoácidos. Essencial para a absorção de N pelas plantas
Histidina Regula a concentração de ácido aspártico

Proteção das plantas às radiações ultravioletas

Maior sanidade das plantas

Isoleucina Aumenta a velocidade de brotação das plantas

Prevenção de anomalias em plantas, mantendo a integridade dos tecidos

Leucina Atua na brotação das plantas – aumenta a velocidade do processo germinativo

Incremento na produção, atuando na fecundação e no pegamento dos frutos

Melhora a qualidade dos frutos

Lisina Fonte de N às plantas

Ativa a clorofila, retardando a senescência das plantas

Aumenta a tolerância das plantas aos estresses abióticos

Atua na síntese de clorofila

Metionina Precursor do etileno, hormônio responsável pela maturação dos frutos. 

Aumenta a espessura das células, dificultando a entrada de patógenos

Favorece a assimilação dos nitratos

Prolina Aumenta a tolerância das plantas aos estresses abióticos – seca e veranicos.

Precursor da hidroxiprolina – importante para a formação da parede celular e substrato para a respiração

Serina Precursor do triptofano

Atua nos mecanismos de resistência das plantas às condições climáticas adversas

Tirosina Precursor dos compostos fenólicos. Atua na defesa natural das plantas contra às pragas e doenças 
Treonina Atua no crescimento das plantas, aumentando a velocidade de brotação e a germinação das sementes
Triptofano Precursor do ácido indolacético – AIA –, auxina que forma as enzimas responsáveis pelo alongamento e crescimento celular das plantas. 

Precursor de indolglicosinatos e alcaloides

Valina Atua na velocidade de crescimento das plantas, mais especificamente nos colmos

Atua nos mecanismos de resistência das plantas aos estresses ambientais

Fonte: Vários autores.

 

Considerações finais  

Os aminoácidos são as unidades chaves para a síntese das proteínas. São moléculas orgânicas formadas por átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio. Além desses elementos químicos, há três aminoácidos – cisteína, cistina e metionina – que contém também enxofre.

As plantas sintetizam todos os 20 aminoácidos a partir da assimilação do amônio com o glutamato formando a glutamina. Entretanto, o fornecimento de aminoácidos à cana proporciona uma série de benefícios com aumentos expressivos na produtividade.

Os únicos aminoácidos que à cana e as demais plantas conseguem utilizar no seu metabolismo são os L-aminoácidos.

Os aminoácidos são amplamente utilizados na agricultura brasileira e mundial. Com o avanço nas técnicas de produção dos L-aminoácidos e dos conhecimentos dos benefícios proporcionados às plantas, o consumo de aminoácidos na agricultura brasileira é crescente.

Desempenham diversos papéis nas plantas, atuando como precursores da síntese de metabólicos secundários – hormônios e na biossíntese de compostos fenólicos conferindo maior resistência das plantas ao ataque de pragas e doenças. 

Atuam também na tolerância das plantas aos estresses abióticos – seca, veranico, salinidade dos solos e bióticos – fitotoxicidade dos defensivos agrícolas.